domingo, 15 de junho de 2014

COLUNA

Domingo, 15 de Junho de 2014 - 09:00
Coluna A Tarde: As vaias são normais

por Samuel Celestino


Quando foi governador da Guanabara, Carlos Lacerda passou todo o período do mandato sem frequentar o Maracanã, como era do seu hábito. Costumava dizer que o povão tinha uma espécie de alergia ao homem público e as vaias eram normais. No regime militar, os ditadores Costa e Silva e Garrastazu Médici frequentavam o estádio, mas a situação era outra. Agentes de segurança misturavam-se com o povo e, ao invés das vaias, havia o silêncio. Mesmo que Médici usasse um radinho para acompanhar as partidas, o que era também uma forma de parecer popular, embora a população sempre nutrisse ódio contra os ditadores que tolhiam as liberdades individuais. O medo sobrepujava as vaias.
Não são anormais as vaias a governadores e presidentes, a depender da situação política do momento. No exterior, é raro que isso aconteça. Pelo contrário, em respeito, aplaude-se. Aqui, na Copa das Confederações, ao pronunciar o discurso de abertura no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, Dilma Rousseff foi intensamente vaiada e ela acabou por reduzir o seu discurso. Ali começavam as manifestações populares que perduram. Na verdade, as vaias de Brasília, como as do Itaquerão, em São Paulo, não tiveram origem no povo, mas sim na elite que pagou ingressos caros, principalmente na abertura da Copa do Mundo. É sempre assim que acontece.
Em Brasília, a manifestação popular que deu origem ao movimento foi marcada por outra razão. Os manifestantes estavam fora do estádio e pretendiam entrar para assistir ao jogo. O que ocorreu dentro teve, como sempre, origem na classe mais esclarecida e, em se tratando de Brasília, a população tem alergia aos políticos e com eles convivem, vizinhos que são, portanto próximos da corrupção. No Itaquerão, a presidente resolveu não discursar, justo para evitar que não acontecesse o que acabou se registrando. Sua presença era do conhecimento. Tudo começou quando sua imagem surgiu no telão do estádio. E assim ocorreu por quatro vezes, seguido por um refrão desrespeitoso para ela e para o presidente da Fifa, Joseph Blatter.

A notícia correu os jornais do mundo. Não somente pela abertura da Copa, mas, também, pela primeira vitória da seleção. De resto observou-se a falta de civilidade que acompanha a imagem do Brasil no exterior, assim como a violência. A parte positiva são as belezas naturais do país e a alegria inerente ao futebol. Aliás, fica mesmo como se costuma dizer, no futebol e no Carnaval, porque não sei mesmo se o povo brasileiro, com tamanha desigualdade econômica e social, consegue ser alegre no dia a dia, onde é maltratado de todas as formas, a começar pela quase ausência da saúde pública, como também na disparidade do setor educacional entre as classes, como se observa na educação pública e na privada.

Aliás, nos últimos 50 anos, menos, muito menos talvez, a educação pública que tinha nível superior à privada, desabou em consequência de diversos fatores, principalmente com uma ditadura elitista que durou 25 anos, onde a democracia foi alijada do dia-a-dia para dar lugar ao medo, como acima já citado.

*Coluna de Samuel Celestino publicada no jornal A Tarde deste domingo (15).

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